“Canetas emagrecedoras": milagre, triunfo da ciência ou novo formato da obsessão pela magreza?

  • 13/03/2026
(Foto: Reprodução)
Vivemos num tempo de promessas instantâneas, onde a fronteira entre a inovação clínica e o acessório de moda parece dissolver-se à velocidade de um "clique" nas redes sociais. No centro desse problema estão os medicamentos análogos do GLP-1 (Glucagon-Like Peptide-1), hormônio responsável por sinalizar ao organismo que está na hora de liberar insulina e de reduzir o apetite. A semaglutida foi a primeira substância a despontar no mercado criando alvoroço e trazendo esperança. Originalmente concebida para o controle glicêmico, a semaglutida transbordou os limites dos consultórios, ultrapassou as indicações clínicas iniciais para se tornar a "caneta milagrosa" de uma geração antenada na saúde, mas também obcecada por estética e controle. Sob o brilho da eficácia na perda ponderal, escondem-se dilemas éticos, aspectos sociais e profundas questões sobre corpo que não podemos ignorar. Estamos celebrando o triunfo da ciência que aparelhou a medicina com uma arma capaz de enfrentar um grave problema de saúde pública, ou estamos alimentando um novo formato de obsessão pela magreza e controle do corpo com consequências imprevisíveis? É inquestionável que esse tipo de medicação constitui uma ferramenta importante em muitos casos clínicos. No entanto, a difusão da “caneta milagrosa” parece alimentar o imaginário de que num passe de mágica todos os problemas relacionados à comida, ao peso e ao corpo vão se resolver. Nesse movimento, corre-se o risco dessa proposta milagrosa encobrir muitas camadas da complexidade psíquica e subjetiva implicada na obesidade. A preocupação que nos convoca a compartilhar este texto relaciona-se ao uso para fins estéticos por pessoas que não apresentam indicação clínica, evidenciando a adesão a um ideal de perfeição nocivo e irreal, criando um terreno fértil para o desencadeamento de novos ou antigos transtornos alimentares. O rápido avanço desses medicamentos demonstra dados impressionantes: pela primeira vez em décadas. Segundo levantamento do Gallup National Health and Well-Being Index (Witters; James, 2025), a taxa de obesidade entre adultos nos Estados Unidos recuou de 39,9% em 2022 para 37,0% em 2025, aproximadamente 7,6 milhões de casos. Esse declínio coincide com o aumento do uso de medicamentos análogos ao GLP-1. Em contrapartida, a preocupação com o peso e a imagem do corpo caminham lado a lado com os transtornos alimentares. Estudos mostram que a crescente insatisfação corporal está relacionada ao uso de redes sociais, pois esses espaços intensificam as preocupações com imagem por meio da comparação social, da internalização do ideal de magreza e da auto objetificação (Dane; Bhatia, 2023), além disso colabora na popularização dos análogos do GLP-1 para fins estéticos. A queda da obesidade e a ascensão dos transtornos alimentares não são, portanto, dados independentes: são sintomas de uma mesma cultura que patologiza, com igual intensidade, tanto o corpo em excesso quanto o corpo em falta. A história dos medicamentos para obesidade traz lições importantes que não podem ser ignoradas. Desde a década de 1930, as anfetaminas foram amplamente prescritas para perda de peso, chegando ao auge com “pílulas" que combinavam anfetaminas, barbitúricos, hormônios tireoidianos, diuréticos e laxantes. No final dos anos 1960 essas pílulas foram banidas após uma série de mortes e efeitos adversos graves. Com os análogos do GLP-1, a história pode não se repetir, mas os sinais de alerta já começam a aparecer. Organizações especializadas em transtornos alimentares nos Estados Unidos alertam para o risco do uso indevido entre pessoas com transtornos alimentares como anorexia nervosa e bulimia. Quando um tratamento importante se torna a “caneta milagrosa” para deixar todo mundo no padrão estético vigente, corremos o risco de transformar uma boa alternativa farmacológica em instrumento de performance ou em tecnologia a serviço da gestão de si mesmo. Saiba mais

FONTE: https://g1.globo.com/pr/parana/especial-publicitario/instituto-especonhecimento-psicanalitico/noticia/2026/03/13/canetas-emagrecedoras-milagre-triunfo-da-ciencia-ou-novo-formato-da-obsessao-pela-magreza.ghtml


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